
A busca pela universalização dos serviços de água e esgoto até 2033 tem levado estados e municípios a avaliarem diferentes caminhos para ampliar investimentos e acelerar a expansão da infraestrutura.
Concessões, PPPs, regionalizações e modelos híbridos passaram a fazer parte da estratégia de diversos governos.
Entre os casos mais relevantes dos últimos anos está o processo de privatização da Corsan, concluído em 2022 e posteriormente consolidado com a entrada da Aegea Saneamento no controle da companhia.
O caso despertou atenção nacional por representar uma das maiores operações societárias já realizadas no setor de saneamento brasileiro.
Mas a pergunta que permanece é:
O modelo adotado pela CORSAN pode ser considerado uma alternativa viável para outros estados na corrida pela universalização?
O desafio imposto pelo Marco Legal
As metas estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento são ambiciosas:
Para muitas companhias estaduais, atingir esses índices exige volumes de investimento muito superiores à capacidade histórica de geração de caixa.
Diante desse cenário, diversos governos passaram a analisar alternativas para ampliar sua capacidade de investimento e acelerar obras.
O que diferenciou o caso CORSAN?
Diferentemente de algumas modelagens que envolvem concessões regionais ou PPPs específicas, o processo da CORSAN ocorreu por meio da transferência do controle acionário da companhia.
A lógica por trás da operação foi relativamente simples:
A expectativa era que uma empresa privada com acesso a capital, escala operacional e experiência em expansão de sistemas pudesse acelerar os investimentos necessários nos municípios atendidos.
Quais as vantagens observadas nesse tipo de modelo?
Os defensores desse formato destacam alguns potenciais benefícios:
Maior capacidade de investimento
Operadores privados costumam possuir acesso mais amplo ao mercado financeiro, possibilitando antecipação de investimentos.
Ganhos de eficiência
A adoção de novos processos de gestão, tecnologia e governança pode contribuir para ganhos operacionais.
Maior velocidade de execução
A simplificação de processos internos e a flexibilidade administrativa tendem a acelerar a implantação de projetos.
Foco em metas
A pressão por resultados e indicadores cria um ambiente mais orientado à execução.
Mas o modelo serve para todos os estados?
Essa talvez seja a principal reflexão.
O caso da CORSAN ocorreu em um contexto específico:
Nem todos os estados apresentam as mesmas características.
Em algumas regiões, PPPs ou modelos compartilhados entre companhias estaduais e operadores privados podem apresentar melhor aderência à realidade local.
Por isso, não existe uma solução única para todo o país.
Universalização exige mais do que mudança de controle
Existe uma percepção equivocada de que a simples mudança do controlador garante automaticamente o cumprimento das metas.
Na prática, a universalização depende de diversos fatores:
A mudança societária pode criar condições favoráveis, mas a execução continua sendo o fator determinante.
O que o setor pode aprender com a experiência da CORSAN?
Independentemente das posições favoráveis ou contrárias ao modelo, o caso oferece aprendizados importantes.
O principal deles é que o setor precisará mobilizar volumes expressivos de capital nos próximos anos.
E isso exigirá criatividade institucional para combinar:
O foco deve estar menos na ideologia do modelo e mais na sua capacidade de entregar resultados concretos à população.
O papel da capacitação nesse novo cenário
Uma questão frequentemente esquecida nos debates sobre privatização é a preparação das equipes.
Independentemente do controlador, a operação continuará dependendo de profissionais responsáveis por:
À medida que novas tecnologias, processos e modelos de gestão são incorporados, cresce também a necessidade de capacitação contínua.
A transformação da infraestrutura exige, simultaneamente, transformação das pessoas.
Conclusão
O processo de privatização da CORSAN representa uma das experiências mais relevantes do saneamento brasileiro recente e certamente continuará sendo analisado por gestores públicos, investidores e reguladores.
Mais do que responder se o modelo deve ou não ser replicado, a discussão central é outra:
Quais mecanismos permitem ampliar investimentos, melhorar eficiência e acelerar a universalização dos serviços?
Em alguns estados, a privatização poderá ser uma alternativa viável.
Em outros, PPPs, concessões regionais ou modelos compartilhados poderão oferecer melhores resultados.
O que parece cada vez mais claro é que a universalização até 2033 exigirá soluções flexíveis, forte capacidade de investimento, boa governança e profissionais preparados para operar um setor em rápida transformação.